De ‘Homem com H’ a ‘Vira’, entenda as referências à obra de Ney Matogrosso no samba da Imperatriz
15/02/2026
(Foto: Reprodução) Obra de Ney Matogrosso vira manifesto estético e político em enredo da Imperatriz
O samba da Imperatriz Leopoldinense, que desfila neste domingo (15) pelo Grupo Especial do carnaval do Rio, é um verdadeiro tributo à obra e à trajetória de Ney Matogrosso. Intitulado “Camaleônico”, o enredo idealizado pelo carnavalesco Leandro Vieira percorre diferentes fases musicais do cantor e utiliza expressões que fazem referência direta a canções consagradas de seu repertório, além de imagens que remetem à sua estética corporal, teatral e transgressora.
Referências a peculiaridades e sucessos do artista poderão ser vistas em alas, fantasias e alegorias durante o desfile. Ao costurar títulos, versos e símbolos do repertório do cantor, a Imperatriz Leopoldinense mostra também, na estrutura do seu carnaval, um samba-enredo que funciona como uma narrativa de clássicas canções e álbuns marcantes do cantor.
1º ensaio-técnico da Imperatriz na Sapucaí
Nelson Malfacini/Divulgação
Leandro Vieira cita quatro álbuns do artista como referências para o enredo da Imperatriz
Leandro Vieira destaca que sua ideia nunca foi fazer uma biografia, mas, sim, um enredo pautado exclusivamente nas obras. O carnavalesco cita quatro álbuns do artista como referências para o seu projeto: "Água do Céu- Pássaro", "Bandido", "Feitiço" e "Pecado".
“Se você imaginar esses quatro discos pós- Secos e Molhados, que ele já se apresenta como uma criatura que inaugura a performance, a androginia. Esses discos já demonstram a força e uma intelectualidade de entender que a estética é um discurso muito potente”, revela.
Samba da Imperatriz faz referência ao Álbum Água do Céu- Pássaro, de 1975
Divulgação/site Ney Matogrosso
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Signos que misturam o masculino e o feminino estarão evidentes também nas fantasias, uma ambiguidade bem característica do universo de Ney Matogrosso.
“Quando eu apresento o Homem com H, esse homem com H é uma ala masculina que mistura signos do imaginário feminino. Por quê? Porque a própria canção é um deboche, né? O Ney grava isso como um deboche. Utilizo essa ideia de caricatura da masculinidade para apresentar um figurino. É homem de meia-calça arrastão cor-de-rosa”, explica Leandro.
Alas e fantasias vão mostrar a versatilidade e potência estética de Ney Matogrosso (foto do 1º ensaio-técnico da Imperatriz)
Nelson Malfacini/Divulgação
Entenda as referências do samba-enredo
No trecho “Pois, sou Homem com H”, o samba cita explicitamente um dos maiores sucessos da carreira solo de Ney, lançado em 1981. A música se tornou um hino de afirmação e liberdade de expressão e dialoga com o tom do enredo, que exalta a quebra de padrões.
Outra referência clara aparece em “O sangue latino que vira / Vira, vira lobisomem”, verso que remete às canções "Sangue Latino" e “Vira”, dos tempos do grupo Secos & Molhados. A letra original fala de metamorfose e instinto, elementos que se conectam com a ideia de camaleonismo presente no enredo.
O samba também faz alusão a “Pavão Mysterioso”, sucesso popular interpretado por Ney, ao usar o verso “Pavão de mistérios, rebelde, catiço”. A imagem do pavão simboliza exibicionismo, sedução e teatralidade.
Em “A voz que a cálida Rosa deu nome”, há referência a “Rosa de Hiroshima”, poema de Vinicius de Moraes musicado por Gerson Conrad e eternizado na voz de Ney Matogrosso. A canção se tornou uma das interpretações mais emblemáticas do cantor, conhecida pela carga dramática e pela crítica à violência e à destruição.
O verso “A força de Athenas que o mau não consome” cita diretamente a música “Mulheres de Atenas”, que associa a figura mitológica à ideia de resistência e poder.
Já em “Não Vejo Pecado ao Sul do Equador”, o samba faz referência à canção de Chico Buarque e Ruy Guerra que ganhou projeção nacional na interpretação de Ney durante os anos finais da ditadura militar. A música ficou marcada como símbolo de liberdade corporal e contestação moral.
Álbum Bandido
Divulgação/ site Ney Matogrosso
Outras imagens evocadas pelo samba dialogam com personagens e temas recorrentes no repertório do cantor, como em “bandido, pecado e feitiço”, que remete a três álbuns lançados em 1976, 1977 e 1978, respectivamente.
Álbum Feitiço
Divulgação/site Ney Matogrosso
O trecho “Pássaro, mulher” recupera a ideia de hibridismo e animalidade presente tanto na estética do artista quanto no álbum “Água do céu- Pássaro”, de 1975.
O verso “Eu sou o poema que afronta o sistema” funciona como síntese conceitual do enredo e dialoga com a canção “Poema”, que também reforça o papel de Ney Matogrosso como artista que enfrentou censura, o conservadorismo e padrões de gênero ao longo de cinco décadas de carreira.
Álbum Pecado
Divulgação/site Ney Matogrosso
Veja o samba-enredo 2026 : Camaleônico
Vem meu amor
Vamos viver a vida
Bota pra ferver
Que o dia vai nascer feliz na Leopoldina
Sou meio homem, meio bicho
O silêncio e o grito
Pássaro, mulher
Que pinta a verdade no rosto
Traz a coragem no corpo
E nunca esconde o que é
Pelo visível, indefinível
Ressignifica o frágil
O que confunde é o desbunde
Do que desafia o fácil
Canto com alma de mulher
Arte que sabe o que quer
E não se esqueça:
Eu sou o poema que afronta o sistema
A língua no ouvido de quem censurar
Livre para ser inteiro
Pois, sou Homem com H
E como sou
O bicho, bandido, pecado e feitiço
Pavão de mistérios, rebelde, catiço
A voz que a cálida Rosa deu nome
A força de Athenas que o mau não consome
O sangue latino que vira
Vira, vira lobisomem
Eu juro que é melhor se entregar
Ao jeito felino provocador
Devoro pra ser devorado
Não vejo Pecado ao Sul do Equador
Se joga na festa, esquece o amanhã
Minha escola na rua pra ser campeã